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ISBN: 978-65-88727-30-0
Publisher: Editora Grande Área
Imagine 70,000 Neapolitans screaming a single name until the concrete of Stadio San Paolo trembles. The name is yours. The roar is for you. And yet, in that exact second, what you miss most are the muddy streets of Villa Fiorito, where a skinny boy played barefoot with a rag ball and dreamed of nothing more than a pair of clean boots.
That contradiction defines Diego Armando Maradona. He was worshipped as a living deity while remaining, inside, the same kid who called his mother "my queen." He delivered impossible joy to entire nations and paid for it with his body, his lungs, his sanity. He cheated England with one hand and beat them with the other, in the same six minutes. He won a Scudetto for the poorest city in Italy while sliding into the arms of the Camorra.
This microbook walks you through that life — from the dirt fields where Francis Cornejo first spotted an eight-year-old genius, all the way to the Casa Rosada wake where a country shot rubber bullets to bury its god. You will meet Pelusa, the innocent boy, and Maradona, the global brand. You will understand why millions still light candles for a man who lied, used, betrayed and disappointed almost everyone close to him. Because the story of Diego is also the story of our hunger for flawed heroes who dare to defy the powerful.
Villa Fiorito não aparecia nos mapas turísticos de Buenos Aires. Era um aglomerado de casas de chapa onde Don Diego, o pai apelidado Chitoro, chegou vindo do norte argentino procurando trabalho. Homem de poucas palavras e raízes possivelmente indígenas, ele lavava as chuteiras do filho à noite para que parecessem novas no dia seguinte. Esse era o jeito dele de dizer "eu acredito em você": esfregando o couro até brilhar.
No centro emocional da casa reinava Dalma Salvadora Franco, a Doña Tota. Matriarca feroz, ela chamava Diego de seu sol, e ele a chamava de "minha rainha" e "namorada eterna". Tota tinha ciúmes das namoradas do filho, temia o estrelato e governava a tribo Maradona com um amor tão grande quanto sufocante. Foi dela que Diego herdou a fome de proteger os seus, mesmo quando "os seus" se transformaram num clã perigoso.
Na rua, a bola era do Goyo Carrizo, amigo inseparável que sonhava o mesmo sonho. Foi Goyo quem levou Diego para um teste no Argentinos Juniors. Lá, Francis Cornejo viu o garoto de oito anos dominar uma bola alta com a coxa e quase chorou de surpresa. Cornejo formou os Cebollitas, o time sub-14 que costurou 136 partidas invictas — um número quase mitológico. Enquanto Diego virava capitão e ganhava o mundo, Goyo se lesionava e acabaria catando lixo nas mesmas ruas. A genialidade nascera no barro, mas só um saiu dele.
Dez dias antes de completar 16 anos, em outubro de 1976, Diego entrou em campo pela equipe principal do Argentinos Juniors. No primeiro toque profissional da vida, deu uma caneta em Juan Domingo Patricio Cabrera, jogador adulto e experiente. O estádio riu, depois aplaudiu, depois entendeu. Aquela não era audácia de moleque. Era anúncio.
A Argentina daquele momento era um país aterrorizado. A ditadura militar de Jorge Rafael Videla sequestrava, torturava, fazia desaparecer. E enquanto o terror corria nos porões, Diego virava capitão e artilheiro do Argentinos com 17 anos, convocado por César Luis Menotti para a seleção principal. O regime entendeu rápido o valor político de um ídolo popular. Quando Menotti o cortou da Copa de 1978, o golpe foi cruel — mas a redenção veio no Mundial Sub-20 de 1979, no Japão, com Diego liderando a Argentina ao título. Videla obrigou os campeões a cortarem o cabelo e usou a taça como propaganda.
Antes disso, no Rio de Janeiro, ele encontrou Pelé. O rei deu três conselhos: cuide do corpo, leia os contratos, desconfie da noite e dos bajuladores. Diego ouviu sorrindo, chamou aquilo de "meu Mundial particular" — e, anos depois, ignoraria cada palavra.
Jorge Cyterszpiler era um garoto de classe média, apaixonado por futebol, que virou amigo íntimo de Diego e depois seu primeiro grande empresário. Inventou algo que ninguém antes tinha inventado: uma marca pessoal de jogador. Maradona Producciones licenciava imagem, fechava publicidade, transformava o camisa 10 em produto. A família trocou Villa Fiorito por casas confortáveis. Tota finalmente tinha geladeira cheia.
Em 1981, depois de uma novela financeira com cheques sem fundos e transferências cruzadas de dezenas de jogadores, Diego foi emprestado ao Boca Juniors, clube do coração de Don Diego. O encaixe foi antropológico: o moleque rebelde, filho do povo, jogando no clube do povo. Ganhou o Campeonato Metropolitano de 1981, sua única glória de clube em solo argentino, e foi carregado no colo como messias xeneize.
Mas a fama virou cerco. Repórteres na porta, fãs na janela, festas extravagantes, mansões compradas por impulso, carros importados. O hedonismo crescia na mesma velocidade do estrelato. O Pelusa inocente já dividia espaço com Maradona, marca global ambulante. A privacidade tinha acabado, e ele ainda não fazia ideia do preço daquilo.
A Copa de 1982 foi um banho de realidade. O futebol europeu era brutal, tático, sem piedade. Claudio Gentile o agarrou pela camisa, pelo short, pela perna, somando 23 faltas num único jogo. Diego, frustrado, foi expulso contra o Brasil. A Argentina caiu e ele desembarcou em Barcelona quebrado por dentro.
O Barça era milionário, conservador e mandado pelo presidente Josep Lluís Núñez, que não suportava o argentino. Uma hepatite misteriosa o derrubou. Foi ali que entrou Fernando Signorini, preparador físico revolucionário que começou a medir cada batimento, cada peso, cada gordura corporal de Diego — algo inédito no futebol. Para sobreviver emocionalmente, Diego importou para uma mansão em Pedralbes seu "clã": amigos de Fiorito, primos, parasitas. A imprensa catalã odiava aquela barulheira "sudaca". Sua âncora era Claudia Villafañe, a namorada de Buenos Aires que abandonou os estudos para ser esposa, mãe e refúgio diante das infidelidades e do caos.
O fim veio em duas cenas. Andoni Goikoetxea, o "Carniceiro de Bilbao", entrou por trás e quebrou o tornozelo esquerdo de Diego. Quase encerrou a carreira ali. Meses depois, na final da Copa do Rei contra o Athletic Bilbao, uma briga generalizada virou cena de rua diante do rei da Espanha. O Barça respirou aliviado quando Cyterszpiler arquitetou, em negociações de última hora, a transferência para um lugar improvável: Nápoles.
Corrado Ferlaino, presidente do Napoli, não tinha o dinheiro. Conseguiu na base de garantias arriscadas, empréstimos e blefes, comprou Diego e o apresentou em julho de 1984 diante de 70.000 napolitanos no Stadio San Paolo. A cidade mais pobre da Itália, humilhada há décadas pelos clubes ricos do Norte, recebia um salvador. As faixas pediam milagres. Diego sorria e prometia.
A Serie A era um muro defensivo. Diego teve que reaprender paciência, ler marcações duplas, escolher o segundo de explosão. E adotou Nápoles como causa pessoal. Quando a Juventus de Platini visitou o San Paolo, ele marcou um gol absurdo de falta indireta dentro da área, driblando a barreira com um chute de cobertura raspado. Era mais que três pontos: era resposta ao racismo das torcidas do Norte, que chamavam os napolitanos de africanos, cheirosos, miseráveis.
Fora de campo, Cyterszpiler caía em maus investimentos e perdia a confiança de Diego. Entrou em cena Guillermo Cóppola, playboy ex-bancário com agenda cheia de festas, mulheres e contatos perigosos. Cóppola multiplicou contratos publicitários e renda — e abriu a porta pela qual entrou, devagar e fatal, a cocaína.
Carlos Salvador Bilardo assumiu a seleção argentina com um método obsessivo, antimenotista, todo voltado ao pragmatismo. Estudava adversários como cientista louco. Tomou uma decisão polêmica: tirou a braçadeira de Daniel Passarella e entregou tudo a Diego. Construiu um 3-5-2 inteiro ao redor do camisa 10. A imprensa argentina o massacrou. Bilardo não cedeu.
No México, em 1986, a concentração era precária, supersticiosa, quase amadora — e isso uniu o grupo num "nós contra o mundo". Passarella adoeceu misteriosamente, perdeu espaço no vestiário e na Copa. Signorini deixou Diego no auge físico absoluto. Veio a quartas contra a Inglaterra, com a Guerra das Malvinas ainda viva na pele de cada argentino. Camisas costuradas às pressas pelas costureiras do Club América, escudos pregados na noite anterior pelas mãos supersticiosas de Bilardo.
No segundo tempo, dentro de seis minutos, Diego sintetizou a Argentina inteira. Primeiro, pulou com Peter Shilton e empurrou a bola com o punho esquerdo: a Mão de Deus, malandragem pura, viveza criolla. Depois, recebeu no meio-campo, driblou meio time inglês numa corrida de 55 metros sob o sol escaldante do Azteca e marcou o Gol do Século. Víctor Hugo Morales gritou "barrilete cósmico, de qué planeta viniste?". Veio a demolição da Bélgica na semi, o passe para Burruchaga na final contra a Alemanha, a taça erguida. Não era mais jogador. Era mito.
Em Nápoles, ser deus virou prisão. Diego não conseguia andar na rua, comer num restaurante, levar a filha ao parque. No mesmo período, negou publicamente a paternidade de Diego Jr., filho de Cristiana Sinagra, jovem napolitana com quem teve um caso. O menino existiria por anos como segredo cruel. E ainda assim, em campo, ele conduziu o Napoli ao primeiro Scudetto da história, em 1987. A cidade parou. Cemitérios receberam mensagens: "vocês não sabem o que perderam".
Para sobreviver à idolatria, Diego se aproximou da família Giuliano, clã da Camorra que reinava no bairro de Forcella. Eles ofereciam o que ninguém mais oferecia: proteção, anonimato relativo, festas fechadas, mulheres e cocaína em fluxo constante. O preço se via pelas olheiras. O trio Ma-Gi-Ca — Maradona, Bruno Giordano e o brasileiro Careca — venceu a Copa da UEFA em 1989 e o segundo Scudetto em 1990. Mas Diego já queria fugir. Ferlaino bloqueou sua ida ao Olympique de Marselha. O clube e a federação fingiam não ver os exames sujos. Diego brilhava na quarta-feira e desabava no domingo.
A Copa de 1990 dividiu a Itália ao meio. Argentina e Itália se enfrentariam exatamente no Stadio San Paolo, em Nápoles. Diego, tornozelo destruído por infiltrações, fez algo politicamente brutal: pediu aos napolitanos que torcessem por ele, lembrando-os de que a Itália do Norte os tratava como estrangeiros. Funcionou. A Argentina venceu nos pênaltis e o resto do país nunca o perdoou. Na final, em Roma, o estádio inteiro vaiou o hino argentino. Diego chorou e xingou na câmera. A Alemanha venceu. Ele declarou guerra aberta a João Havelange e à FIFA, acusando esquema contra a Argentina.
A proteção evaporou da noite para o dia. Em março de 1991, depois de um jogo em Bari, exame antidoping positivo para cocaína. Suspensão de 15 meses. Pouco depois, polícia de Buenos Aires invadiu um apartamento e o flagrou com drogas. O semideus virou réu. Fugiu de Nápoles à noite, humilhado, processado, abandonado pelas mesmas autoridades que tinham fechado os olhos por anos.
Em 1992, a FIFA pressionou para que ele pudesse jogar pelo Sevilla, ao lado do velho Bilardo. Foi caos. O clube contratou detetives particulares para vigiar seus hábitos noturnos, suas faltas aos treinos, seu consumo de analgésicos. Diego os descobriu. Brigou com a diretoria, agrediu Bilardo num bate-boca na beira do gramado, faltou a compromissos públicos, foi mandado embora antes do fim do contrato. A passagem espanhola, que devia ser recomeço, virou outra fuga.
Voltou à Argentina em 1993 para vestir a camisa do Newell's Old Boys em Rosário. Treinava pouco, jogava menos, abandonou o clube em meses. Mas Julio Grondona, presidente da AFA, fez um apelo nacional: sem Maradona, a seleção não passaria da repescagem contra a Austrália rumo à Copa de 1994. Signorini foi chamado para um regime de emagrecimento brutal. Diego respondeu como sempre respondeu — com o peito.
Nos Estados Unidos, marcou um golaço contra a Grécia e correu até a câmera com os olhos esbugalhados, como possuído. Era o Diego de sempre, ressuscitado. Depois do jogo contra a Nigéria, a enfermeira Sue Carpenter o levou pela mão para o teste antidoping. Positivo para efedrina, presente em suplementos comprados por um assessor recém-contratado. A FIFA o expulsou da Copa. Ele olhou para a câmera e disse a frase que virou epitáfio esportivo: "me cortaram as pernas".
Tentou ser técnico no Mandiyú e no Racing — fracassou em meio a recaídas. Voltou ao Boca como jogador, cabelo mechado, joelhos vencidos, novos exames positivos. Despediu-se aos 37 anos, exausto. Veio a Iglesia Maradoniana, fundada por torcedores que rezavam o pai-nosso ao D10S. Veio a overdose quase fatal em Punta del Este, em 2000. Veio outra em Buenos Aires, em 2004, com vigílias coletivas pedindo sua vida. Fidel Castro o acolheu em Cuba para desintoxicação. Ele voltou na TV com La Noche del 10, mostrando que o ícone era maior que o homem. E em novembro de 2020, sozinho num quarto térreo, exausto e mal medicado, o coração parou.
Diego foi divindade atlética e fragilidade humana habitando o mesmo corpo pequeno. Carregou os sonhos não realizados de Fiorito e de Nápoles, entregou alegria impossível e pagou o preço na própria carne. Continua sendo um espelho desconfortável: a medida exata da nossa necessidade de heróis defeituosos, capazes de driblar os poderosos e, por seis minutos sob o sol asteca, vencer os deuses.
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